Novo documentário usa o COPAN para contar uma história muito maior que arquitetura
Documentário acompanha moradores, funcionários e disputas internas do edifício enquanto o país atravessa um período de polarização política
Poucos lugares no Brasil conseguem reunir tantas histórias diferentes dentro do mesmo espaço quanto o COPAN. O edifício projetado por Oscar Niemeyer, que domina a paisagem do centro de São Paulo há décadas, já foi símbolo de modernidade, cenário de filmes, ponto turístico e endereço de milhares de pessoas. Agora, ele assume um novo papel, o de protagonista de um documentário que tenta olhar para além do concreto e transformar o prédio em uma espécie de espelho do país.
A Vitrine Filmes divulgou o trailer e o pôster oficiais de COPAN, novo documentário dirigido por Carine Wallauer, que estreia nos cinemas em 28 de maio. Mas a proposta do longa parece seguir por um caminho diferente daquele normalmente associado a produções sobre arquitetura ou grandes marcos urbanos. Em vez de focar apenas na história do edifício, o filme mergulha em sua rotina e tenta entender o que acontece quando milhares de pessoas compartilham o mesmo espaço em um país atravessado por tensões políticas, econômicas e sociais.
Ao longo do documentário, a diretora acompanha a vida cotidiana dentro do prédio durante duas disputas que acontecem paralelamente. De um lado, uma eleição presidencial que divide o país. Do outro, uma acirrada disputa pela administração do próprio edifício. A ideia central parece nascer justamente desse contraste. Se o COPAN abriga diferentes classes sociais, visões políticas, profissões e trajetórias de vida, então talvez ele funcione como uma versão reduzida do próprio Brasil.
Um olhar profundo sobre a obra
Esse olhar ganha ainda mais força porque Wallauer não observa o prédio como alguém de fora. A diretora viveu no COPAN durante sete anos, experiência que deu acesso a bastidores, moradores e personagens que fazem parte da engrenagem diária do edifício. O filme desloca inclusive o foco tradicional que costuma existir sobre o prédio. Em vez de centralizar apenas quem mora ali, a narrativa volta a atenção para os funcionários responsáveis por manter tudo funcionando, profissionais que normalmente permanecem invisíveis apesar de sustentarem a dinâmica do local.
Ao acompanhar corredores, elevadores, reuniões e relações que se cruzam diariamente, COPAN também toca em temas que extrapolam os limites físicos do edifício. Questões como especulação imobiliária, mudanças provocadas por locações de curta duração, crise de moradia e gentrificação passam a surgir de maneira natural dentro da narrativa. O prédio deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar quase como um organismo vivo, onde conflitos, negociações e disputas reproduzem discussões que atravessam o país inteiro.
A proposta já chamou atenção fora do circuito comercial. O documentário venceu o prêmio de Melhor Filme Brasileiro no Festival É Tudo Verdade e foi o único representante latino-americano na competição oficial do CPH:DOX, um dos principais festivais de documentários do mundo. Agora resta descobrir se o mesmo prédio que virou símbolo de São Paulo também conseguirá se transformar em um retrato reconhecível para quem olha para o Brasil de hoje.

