Violoncelista da Orquestra Sinfônica estreia livro que confronta memórias do racismo no Brasil

Obra vencedora do Prêmio Resistência usa poesia, ensaio e crônica para discutir como feridas históricas continuam presentes no cotidiano

Há histórias que começam com uma folha em branco. Outras começam no silêncio.

Durante anos, Carlos Márcio construiu sua trajetória ouvindo. O músico mineiro, integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e natural de Sabará, passou boa parte da vida transformando partituras em som através do violoncelo. Agora, a escuta deu lugar às palavras. E elas chegam carregando um peso que atravessa séculos.

Sua estreia literária acontece com Racismo, Constante como o Tempo, obra vencedora do Prêmio Resistência 2025, que usa poesia, crônica e ensaio para desmontar uma ideia repetida há décadas, a de que o tempo seria suficiente para curar as marcas deixadas pela escravidão. A proposta do livro não é revisitar o passado como algo distante. Pelo contrário, o texto tenta mostrar como estruturas históricas continuam encontrando novas formas de existir no presente.

Quando a experiência pessoal encontra a memória coletiva

O livro parte da História, mas também nasce da vivência.

Carlos Márcio escreve sobre episódios cotidianos de racismo, microagressões e situações que muitas vezes acabam absorvidas como algo comum dentro da rotina brasileira. Em alguns momentos, a experiência pessoal aparece de maneira direta. Um dos relatos citados na obra parte do próprio ambiente onde trabalha, o Palácio das Artes, em Belo Horizonte.

O material também percorre caminhos maiores. Entre poemas e ensaios, o autor conecta diferentes momentos históricos para mostrar que o racismo não sobrevive apenas na memória, mas em estruturas sociais que continuam se reorganizando ao longo do tempo.

Existe um detalhe simbólico nessa transição do músico para escritor. Durante o texto, Carlos define que o violoncelo lhe emprestou “ouvidos para o mundo”, enquanto a escrita lhe ofereceu uma língua capaz de tornar visíveis silêncios que insistem em ser normalizados.

Racismo, Constante como o Tempo por Carlos Márcio (Carlos Márcio Norberto Bicalho)
Crédito: Divulgação

O lançamento vira experiência, não apenas sessão de autógrafos

Talvez por vir da música, a chegada do livro também foge de um formato tradicional.

O lançamento acontece no dia 22 de maio no Teatro Municipal de Sabará em formato de Concerto-Lançamento, misturando literatura e apresentação ao vivo. Depois, a experiência segue para Belo Horizonte, no Auditório Vivaldi Moreira, reunindo música de câmara, teatro, vídeo, narração e Congado em um espetáculo construído em torno de memória, identidade e racismo estrutural.

No fim, Racismo, Constante como o Tempo parece funcionar menos como um livro que entrega respostas prontas e mais como uma pergunta desconfortável deixada para o leitor.

Se o tempo realmente cura tudo, por que algumas feridas continuam abertas?

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Mário Guedes

Jornalista cultural, especialista em marketing e apaixonado por contar histórias que conectam pessoas, tendências e ideias. Entre a cultura pop, a comunicação e o empreendedorismo, transformo informação em conteúdo com identidade, propósito e impacto.