O sucesso de Off Campus mostra que o romance universitário entrou em uma nova fase

Série de Elle Kennedy virou um dos maiores fenômenos recentes do BookTok e revelou uma mudança no jeito como o público se conecta com romances young adult

Teve uma época em que romance universitário era quase tratado como um “guilty pleasure”. Aquele tipo de leitura que muita gente consumia, mas pouca gente admitia levar tão a sério. Histórias previsíveis, atletas populares, festas, tensão romântica e personagens montados para funcionar como fantasia perfeita.

Só que basta olhar para o tamanho que Off Campus (Amores Improváveis no Brasil) tomou nos últimos anos para perceber que o gênero mudou junto com quem lê.

A série de Elle Kennedy explodiu muito além da bolha tradicional dos romances new adult. Virou febre no TikTok, lotou listas de mais vendidos, ganhou edições especiais, comunidades inteiras de fãs e uma quantidade absurda de vídeos de leitores surtando por personagens específicos como se estivessem falando de protagonistas de série de TV. E talvez seja justamente aí que a coisa fique interessante.

Porque o sucesso de Off Campus parece ter menos relação com a fantasia universitária em si e mais com o tipo de vínculo emocional que esses livros criam hoje.

Os personagens continuam bonitos, problemáticos e romantizados, claro. Mas existe uma diferença no jeito como eles são construídos. Garrett Graham, por exemplo, não funciona só como o clássico atleta popular. Boa parte do apelo vem justamente do fato de ele parecer emocionalmente bagunçado o tempo inteiro. Os livros vivem nessa linha entre humor, insegurança, carência emocional e personagens tentando parecer mais confiantes do que realmente são. O público atual parece responder muito mais a isso do que à ideia de perfeição.

Foto: Prime Video

Talvez porque exista uma geração inteira cansada de personagens inalcançáveis. Ou talvez porque essas histórias acabaram encontrando um espaço curioso entre fantasia e conforto emocional. Muita gente lê Off Campus não necessariamente porque acredita naquele universo, mas porque gosta da sensação de estar ali. E o ambiente universitário ajuda muito nisso.

Principalmente depois da pandemia, o campus virou quase um imaginário coletivo dentro da cultura pop jovem. Festa, amizade, convivência, dormitórios, romances intensos, tudo isso ganhou um peso meio nostálgico até para quem nunca viveu essa experiência de verdade. Tem uma idealização forte aí, mas também tem desejo de pertencimento.

Hoje, livros não circulam mais só como livros. Eles circulam como experiência coletiva. Trechos viralizam, personagens ganham fancasts, playlists, edits, memes internos e discussões emocionais gigantescas. Em muitos momentos, acompanhar o fandom parece tão importante quanto ler a história.

O mais curioso é que o romance universitário deixou de ocupar aquele espaço meio marginalizado dentro da cultura pop. As editoras perceberam que existe um público extremamente engajado, disposto a transformar esses livros em fenômeno. Não por acaso, o gênero começou a ganhar tratamento parecido com grandes franquias, capas especiais, marketing pesado, edições deluxe e uma presença absurda nas redes.

No fim, o fenômeno de Off Campus talvez diga menos sobre uma única série e mais sobre o momento atual da cultura pop. Histórias emocionalmente intensas voltaram a ocupar espaço. O público quer sentir conexão com personagens de novo. Quer comentar cenas específicas, sofrer junto, criar teorias bobas, discutir casal favorito.

E talvez o romance universitário tenha entendido isso antes de muita gente.

Mário Guedes

Jornalista cultural, especialista em marketing e apaixonado por contar histórias que conectam pessoas, tendências e ideias. Entre a cultura pop, a comunicação e o empreendedorismo, transformo informação em conteúdo com identidade, propósito e impacto.