Shrek mudou os contos de fadas porque mostrou que eles não precisavam ser perfeitos
Quando Shrek estreou em 2001, muita gente enxergou apenas uma animação irreverente que fazia piadas com os clássicos da Disney. O humor ácido, as referências à cultura pop e a inversão dos contos de fadas fizeram do filme um enorme sucesso, mas sua maior contribuição talvez tenha sido outra. Shrek não apenas brincou com esse universo, ele ajudou a transformá-lo.
Até aquele momento, o imaginário dos contos de fadas no cinema ainda era fortemente marcado por protagonistas idealizados. O herói era corajoso, a princesa era delicada, o príncipe era impecável e o final feliz parecia ser uma consequência inevitável da história. A DreamWorks decidiu olhar para essa fórmula e perguntar: “E se nada disso fosse exatamente como aprendemos?”
Foi assim que nasceu um protagonista improvável. Shrek não era bonito, elegante ou carismático da maneira tradicional. Era um ogro que preferia viver isolado e que, apesar da aparência intimidadora, carregava inseguranças como qualquer outra pessoa. Ao seu lado, Fiona também quebrava expectativas. Em vez de esperar passivamente por um resgate, ela escondia um segredo que mudava completamente a ideia de princesa perfeita construída durante décadas.
Até mesmo o Príncipe Encantado, símbolo máximo do herói clássico, deixa de representar a solução para se tornar parte do problema. Em Shrek, aquilo que sempre parecia ideal passa a ser questionado. A beleza deixa de ser garantia de bondade, enquanto a aparência monstruosa já não define o caráter de ninguém.
Esse olhar foi decisivo para aproximar a história de uma geração que começava a enxergar o mundo com menos ingenuidade. Os contos de fadas continuavam encantando, mas já não eram vistos da mesma forma. O público ainda queria histórias de amor, amizade e superação, mas já não precisava que seus protagonistas fossem perfeitos para acreditar nelas.
Talvez seja justamente por isso que Shrek tenha atravessado mais de duas décadas permanecendo relevante. Sua proposta não era destruir os contos de fadas, mas humanizá-los. Os personagens erravam, sentiam medo, tinham defeitos e precisavam aprender com eles. Eram muito mais parecidos com as pessoas do que com os arquétipos tradicionais que dominaram esse tipo de narrativa por tantos anos.
O impacto dessa mudança foi muito além da franquia. Depois de Shrek, tornou-se cada vez mais comum encontrar protagonistas imperfeitos, princesas independentes, heróis atrapalhados e histórias que brincavam com as próprias convenções dos contos de fadas. O que antes parecia uma ruptura acabou influenciando boa parte da animação produzida nas décadas seguintes.
Agora, com Shrek 5 a caminho, a franquia volta aos holofotes em um cenário completamente diferente daquele de 2001. A ironia é que muitas das ideias que fizeram Shrek parecer revolucionário se tornaram parte do padrão da indústria. O desafio da DreamWorks talvez já não seja reinventar os contos de fadas, mas encontrar uma forma de surpreender um público que cresceu em um mundo moldado pela própria influência de Shrek.
Talvez seja por isso que o ogro mais famoso do cinema continue despertando tanta curiosidade. Não porque tenha acabado com os contos de fadas, mas porque ajudou a provar que eles podiam continuar existindo sem esconder as imperfeições que tornam qualquer personagem, e qualquer pessoa, verdadeiramente humana.
Foto: Divulgação/DreamWorks

